Rio Claro na memória de seus cidadãos

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           O espaço pode influenciar de forma direta e indireta a vida das pessoas e, mesmo depois de muito tempo, mostrar traços culturais e histórias encobertas pela modernização que, constantemente, revela novas tecnologias e novas formas de realizar determinadas atividades. Assim, aos poucos, a sociedade aprendeu a digerir estes aspectos introduzidos e a transformá-los em algo que integre seu cotidiano e sua história.            Nosso próprio passado registra marcas no tempo e no espaço. Relembrá-lo significa resgatar a história de uma localidade, de uma comunidade e de comportamentos intrínsecos à realidade cultural e econômica da época. Por isso, para analisar a memória de um povo, é de fundamental importância entender que estas características não podem ser dissociadas.            No momento em que uma história é revivida, revelam-se significados nunca antes explorados em pesquisas e estudos, o que pode suscitar em importantes descobertas para a atualidade e para o desenvolvimento futuro de uma localidade. Além disso, quando revivemos uma história, os momentos que marcaram a vida das pessoas são lembrados e resgatados. Para estes relatos atribuímos o nome memória. São destas lembranças que construímos a memória de um povo, de um local, de uma sociedade. O resgate destas “memórias”, que revelam e enfatizam a percepção de um povo, nos permite pesquisar e registrar além da história oficial. É esta memória que é transmitida de geração em geração.Tomando estes princípios como norteadores, buscou-se obter, através de entrevistas com idosos no município de Rio Claro (SP), alguns traços que definem características da identidade da comunidade local, aspectos históricos que tenham sido fundamentais para a cidade, bem como para as vidas dos entrevistados.Pôde-se perceber que alguns pontos são comuns na história de vida das pessoas, os quais se confundem com a história local: a Cervejaria Caracu, a Fábrica Matarazzo, a tradição do ciclismo e, principalmente, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que foi peça fundamental para o desenvolvimento e expansão da cidade. A importância da Companhia Paulista para a cidade pôde ser constatada durante as entrevistas: “A Paulista foi um marco para a cidade. Era um meio de transporte seguro e deu emprego para muita gente. Depois, com a privatização, entrou em decadência, não há mais trens, roubam os trilhos, o que ficou foram as rodovias. Antes a cidade vivia em função da ferrovia, acertava os relógios de acordo com os apitos dos trens, depois da privatização virou um desastre”, comenta o marceneiro aposentado Avelino Sulatto, 82 anos.Outra característica importante da cidade é sua tradição histórica no uso da bicicleta como meio de transporte que remota ao início do século XX. Dentre os relatos dos entrevistados esta identidade foi reforçada: “Andar de bicicleta era comum entre todos. Naquela época havia poucos carros e, aos poucos, se tornou cultura, uma das poucas coisas que se mantém até hoje”, relembra o funcionário público aposentado Vivaldo Stephan, 74 anos.Ao longo dos anos, a cidade sofreu consideráveis mudanças em seu perfil: “A cidade era mais caseira, tinha segurança, conversávamos nas calçadas, as pessoas podiam caminhar tranquilamente pelas ruas, as casas ficavam abertas, e nada acontecia. Hoje a cidade está mais desenvolvida, pagamos o preço do progresso”, afirma o bancário aposentado Urbano Luchini, 83 anos.Para muitos, os trens, o apito das fábricas e a segurança são coisas que marcaram suas vidas e que não estão mais presentes no cenário do século XXI. Hoje, além das lembranças na mente daqueles que presenciaram estas mudanças, o que restou foram alguns vestígios desta história. A antiga Estação Ferroviária, que teve seu prédio tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico e Turístico (CONDEPHAAT), abriga atualmente a sede da Secretaria Municipal de Turismo e, na parte externa, um terminal de ônibus urbano. Da ferrovia restam ainda os trilhos que cortam a zona urbana da cidade e o pontilhão da Avenida 7. Prédios de antigas fábricas foram reformados e hoje são utilizados para outros fins: no da Caracu funciona a Escola Superior de Tecnologia e Educação (Asser) e a Fábrica Matarazzo deu lugar ao Shopping Center Rio Claro. O que se espera é que histórias como estas não sejam perdidas. Para que isto não ocorra, cada vez mais precisamos concentrar esforços em pesquisas científicas, registros literários e na preservação dos patrimônios, a fim de manter vivas as memórias de um povo.
 
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