Esquemas e manobras
Jaime Leitão
Que há burocracia na máquina do Estado, sobre isso não paira nenhuma dúvida. É burocracia demais que impede a máquina de andar para trabalhar em prol dos interesses da nação. Já no esquema fraudulento, não há burocracia que atrapalhe. A agilidade é tanta que em pouco tempo os membros de um esquema, como esse que foi desbaratado ontem no Rio, movimentaram cerca de 20 milhões de reais, com apoio técnico de quem entende do assunto e se mostra competente no seu ofício de fraudar licitações e outras mutretas.
A Polícia Civil ainda não chegou ao fundo do poço da roubalheira, mas já descobriu que a quadrilha representada por 12 empresas e seus respectivos empresários já estava se preparando para armar um megaesquema para fraudar licitações de obras que serão realizadas para a Copa do Mundo de 2014 e para a Olimpíada de 2016. Estava tudo sendo preparado quando a polícia chegou e estragou a festa daqueles que se consideram acima de qualquer lei e controle.
A questão nevrálgica é que quando um esquema é desmontado, surge em seguida outro para substituí-lo. O banquete da Copa e da Olimpíada deve estar sendo cobiçado por novas organizações fraudulentas, que esperam famintas a queda de uma para entrar em ação e ir em frente ainda com mais fome.
Além dos esquemas, há também as manobras. Os aposentados que estiveram ontem na Câmara dos Deputados em Brasília protestando contra o fato de a correção de seus salários não ser feita com base no aumento do salário mínimo perceberam a manobra do governo e dos seus aliados para embargar a votação, que estava agendada para os próximos dias. Os governistas alegam que, se esse aumento for dado, a Previdência poderá implodir, mas eles não cogitam de estudar maneiras de enxugar a máquina, inchada com tantos funcionários e gastos excessivos. Arrochar os aposentados pode, racionalizar os gastos públicos, com mais austeridade, isso não.
E tem mais manobra gerando crise entre as instituições. A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de cassar o mandato do senador Expedito Júnior, de Rondônia, do PSDB, depois de ter sido apurada compra de votos na sua campanha, não foi seguida pela mesa diretora do Senado, que está levando o caso em banho-maria, de água bem suja, provocando protestos da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), do presidente do Supremo Gilmar Mendes e de outros ministros do STF. O Senado só dá nó e cada vez mais se desmoraliza. Enquanto isso, Sarney, como um robô fora de linha, continua posando de presidente de uma instituição que não para de nos mostrar que o abismo lá é bem mais embaixo do que parecia a princípio.
Esquemas e manobras funcionam muito bem. Têm um crescimento difícil de avaliar porque nunca entram nas estatísticas para manter o sigilo. Quanto mais sigilo, melhor para os fraudulentos e licitantes do abuso sem fim.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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