Revolta versus indignação
Nelson Salomone
É importante dar nome aos bois. Mas antes vamos dar uma volta pelas palavras revolta e indignação. A primeira faz parte de uma pessoa inconformada que se sente alvo de injustiça. Ela é usada para expressar uma insatisfação extrema quando algo já passou dos limites normais e não temos a quem recorrer. Exemplo: salário mínimo, pensão dos aposentados, salário de professor. Se são eles que educam todos os outros profissionais desde a pré-escola aos cursos de mestrado, doutorado e etc, por que recebem tão pouco? Isso cria uma revolta. E como cria!
Temos outros tipos de revolta que são frutos da revolta metafísica, ou seja, é a revolta do homem contra a sua condição e contra sua criação, ou contra os motivos de sua criação e que justificariam sua condição. É a declaração do homem de se ver frustrado em sua criação. E aí nós temos, por exemplo, uma senadora chamada Ideli Salvatti. Meu Deus! Ela parece a típica revoltada que causa os mais primitivos instintos a quem a vê nas discussões do Circo Senado. Que coisa mais deprimente! Horrível! É um mau exemplo.
Por outro lado vem a indignação. É um sentimento despertado por uma ação indigna. Repulsa, aversão aos políticos e suas manobras pirotécnicas como bem se refere a eles o presidente da República. Aliás, ele é o encarregado de acender o estopim da pirotecnia. Sempre! É repugnante!
Outro dia um amigo me disse que fica indignado quando vê a figura do Michel Temer. Realmente é de pasmar! Parece uma construção de um ser de outro planeta! E que planeta!
Então, cá estamos nós com os revoltados e com os indignados e eu fico me perguntando se isso um dia vai acabar. A resposta é simples: não vai acabar. Haverá outros revoltados e outros indignados. Mas você pode perguntar se eu não estou sendo pessimista. Não, não estou. Pelo menos pelas próximas décadas as previsões não são nada animadoras. Eu sou otimista, estudei muito, trabalhei muito, mas não aceito que façam palhaçada e mintam descarada e despudoradamente! Como não sou filiado a partido político nenhum, eu posso expor minhas sensações de indignação como contribuinte. É um dever cívico!
Eu gostaria de saber o que vocês acharam do discurso que o presidente fez na semana passada para os catadores de lixo em São paulo. Isso tem muito a ver com revolta e indignação!
Lula era o convidado de honra da Expocatadores 2009, evento que reuniu “catadores de rua” do país. Ele aproveitou para fazer uma crítica indireta à elite do país: “Essa gente, que eu diria, até de forma humilhante, não tinha vergonha de passar de carro e jogar um lixo qualquer achando que vocês eram de segunda categoria e tinham obrigação de catar o lixo deles (…) Vocês estão ensinando a essa gente pedante, a essa gente arrogante, que o ser humano não pode ser discriminado pela sua profissão”.
Até aí, tudo certo. Há uma realidade nisso. Mas entenderam a mensagem subliminar? Preciso desenhar essa “coisa” que causa medo?
Se ele tivesse cumprido suas promessas quando assumiu em 2002, nós teríamos um Brasil mais igualitário. Mais fraterno. E mais livre de falcatruas. E sem fazer acordo com o diabo! E ele teria quase a unanimidade dos brasileiros ao seu lado. Humildemente, inclusive eu!
Mas essa igualdade mentirosa e inexistente a que ele se refere é fruto de um governo que só discursa.
A realização dos seus 7 anos de governo é ao mesmo tempo intrigante e fabulosa: ele conseguiu fazer com que os catadores continuassem catadores!
(O autor é empresário, engenheiro químico pelo Mackenzie e mestre em Marketing e Finanças pela Flórida State University - e-mail: nelsonsalomone@gmail.com)
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