Claude Lévi-Strauss
Jaime Leitão
Morreu sábado em Paris - mas a sua morte só foi divulgada ontem - um dos maiores pensadores do século XX, Claude Lévi-Strauss, dias antes de completar 101 anos de idade. Apesar de ter nascido em Bruxelas, na Bélgica, é considerado francês por ser filho de pais judeus franceses e por ter construído a sua carreira universitária e a maior parte da sua obra na França.
Só que se não tivesse vivido aqui no Brasil durante três anos, talvez a sua maneira de pensar e de formular as suas teorias não fosse tão original e criativa. No período em que lecionou na USP, na década de 1930, quando ainda tinha vinte e poucos anos, Lévi-Strauss teve a oportunidade de conhecer um mundo completamente distante da academia e da civilização europeia, viajando pelo Mato Grosso e a Amazônia para conhecer culturas indígenas como as tribos cadiuéus, bororos e nambiquaras.
Foi o gosto pela aventura que fez com que o sociólogo abrisse espaço para o etnólogo entrar na sua vida e torná-la mais estimulante e rica em experiências. Em entrevista à Revista de Antropologia da USP, às vésperas de completar 90 anos, Lévi-Strauss mantinha a mesma lucidez da juventude e fez questão de se lembrar dos aromas do Brasil, contando: “Certa vez estávamos indo na direção do Madeira, e ainda não era a Floresta Amazônica, era mais o campo, uma espécie de floresta seca, e de repente, montado no cavalo, vi no solo um campo de abacaxis selvagens. Bastava inclinar-se bem baixo, sem desmontar, para arrancar os frutos e comê-los. É uma das sensações gustativas e olfativas que ficaram porque não era como o abacaxi que conhecemos, era um abacaxi com um cheiro de framboesa absolutamente extraordinário. Há muitos e muitos outros cheiros, mencionei esse apenas”.
É impossível pensar no estruturalismo, na sociologia, na antropologia e na etnografia sem citar Lévi-Strauss. Ele aliou a teoria à prática e influenciou várias gerações de professores e pensadores que vieram depois dele, e se tornou o maior nome da Universidade de São Paulo em todos os tempos.
O pensamento não se constrói só a partir de abstrações mentais, ele necessita da experiência corporal, do estar presente onde a vida acontece em toda a sua diversidade, além dos livros e do espaço da universidade. E Lévi-Strauss serviu de exemplo para que outros estudiosos saíssem a campo e entrassem na mata, descobrissem novas culturas e percebessem a dinâmica do mundo e a importância dos sentidos e do sentir, que são complementares ao pensar.
Lévi-Strauss será ainda estudado por muito tempo porque as suas obras têm muito a oferecer a quem possui ânsia de conhecer de uma forma que transcenda a teoria porque ele foi também um ser prático, aguerrido, sedento de ver, de ouvir, de trocar ideias com pessoas bem diferentes dele, mas que tinham muito a acrescentar.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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