Respire fundo
Jaime Leitão
Na teoria sabemos que respirar fundo nos alivia quase instantaneamente de uma situação desagradável, de uma tensão provocada por uma discussão besta, que poderá se dissolver se, por quinze segundos, nos concentrarmos em nós mesmos e dermos aquela respirada que relaxa. Mas se não respirarmos fundo, o conflito poderá se agravar e provocar uma encrenca bem maior do que imaginávamos a princípio.
Mas quem se lembra disso? Mesmo quem pratica ioga há anos, na hora de brigar porque o motorista que vinha atrás encostou no seu carro e provocou um risco quase invisível, fica tenso, grita e se esquece de respirar fundo para resolver o problema - não tão grave assim - de forma mais tranquila e relaxada.
Respirar é o nosso ato mais elementar, o primeiro de todos, mas costumamos utilizá-lo mal, respirando de forma entrecortada, ansiosa: falta dentro do nosso cérebro um lembrete que se acenda na hora em que mais precisamos: - Respire fundo.
Quantas confusões, agressões, conflitos poderiam ser evitados, ou equacionados de outra maneira, se relaxássemos por alguns segundos. Mas não. Estamos em guerra. O trânsito é um front, não queremos ser ultrapassados, só nós podemos ultrapassar. Quem disse isso? Não somos donos nem do espaço urbano nem das rodovias. Ninguém é.
Treinamos a nossa mente e o nosso corpo para sempre nos mantermos em estado de alerta. Até nas academias, a meta é aumentar a produtividade nos exercícios, ir além do nosso concorrente na esteira ao lado, até que não estejamos aguentando mais, mas não podemos desistir, demonstrar fraqueza. Aí a nossa pulsação chega a 200 ou mais. Sorte que o personal trainer da academia percebeu a nossa cor quase roxa e desligou a esteira um segundo antes de pifarmos.
Exigimos de nós muitas vezes mais do que podemos render. Esquecemos que relaxar contribui para nos recompormos, mas não. Se estamos caminhando na rua, e baixa aquele cansaço por causa do calor desses últimos dias, continuamos assim mesmo. E se algum conhecido nos encontrar parados por um instante, o que irá dizer? Que diga o que quiser. O importante é que um minuto parado, respirando fundo, pode nos fazer um bem fora do comum.
Relaxar não é nenhuma vergonha. As pausas são essenciais. Entre uma ideia e outra de um texto, por exemplo, há as pausas que permitem pensar nas próximas frases e parágrafos. Respirei fundo agora. Não sou máquina de escrever e de pensar. E ninguém é máquina de correr, de dirigir, de trabalhar. Pequenas pausas para dar aquela respirada são boas demais e evitam que entremos numa discussão sem fim por causa de qualquer besteira.
Quem é pavio curto estoura de hora em hora justamente porque não usa esse recurso tão antigo quanto o ser humano, e tão valioso, que é respirar profundamente. Não faz barulho, não chama atenção de ninguém e nos alivia. O que queremos mais?
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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