Chantagens
e ameaças
Jaime Leitão
Não se trata de falta de bom senso afirmar que o centro do poder da política brasileira está profundamente enlameado por ameaças e chantagens. Dá nojo. Não encontrei termo mais ameno, um eufemismo, para expressar o que sinto. Ninguém é obrigado a sentir o mesmo que eu, mas percebo pelas conversas com amigos e pessoas que encontro nos mais diversos lugares que indignação é muito pouco para representar esse estado de coisas.
Peguei a Folha ontem pela manhã e dei de cara com a manchete: “Sarney ameaça governo com renúncia”. É um tom de chantagens e ameaças que engolfa a nossa democracia num canal em que há todo tipo de lama, menos água pura. Sarney resiste como um náufrago que já nadou muito bem em outros tempos, mas agora não tem mais fôlego para continuar nadando.
E esse nadar muito bem não significa que ele tenha sido um exemplo de político. Ter história não é necessariamente ter uma boa história. Sarney sempre foi um grande negociador de cargos, no Maranhão e fora dele, e teve a sorte, que foi o nosso azar, de ter assumido a presidência no lugar de Tancredo Neves, que nem chegou a assumir.
Agora, com praticamente todos os partidos o abandonando, inclusive o dele, o DEM (Democratas), o PT acena com a mão aliada da senadora Ideli Salvatti, depois fecha questão sobre o seu afastamento, de repente abre de novo, num ziguezague estonteante e nauseante.
Enquanto nada se decide, Sarney aparece mudo diante de todos e ensaia o seu calvário, para a imagem de vítima prevalecer no último momento. O presidente Lula, em reuniões fechadas, calcula com sua equipe se perderá mais ou menos com a permanência de Sarney no poder. Que matemática é essa?
Tudo vira um grande mercado persa. Quanto vale politicamente o presidente do Senado? Qual a porcentagem de estragos que provocará a sua saída? E a sua permanência? A cada movimento de novas reuniões, que só aumentam esse clima de negociação e de avaliação de perdas e ganhos políticos, de cada partido, mais o País se vê à margem daqueles que deveriam estar preocupados com a defesa dos interesses da população, não com os próprios.
Não é só Sarney que está envolvido com as decisões secretas do Senado, mas, na condição de presidente, perdeu a credibilidade para continuar. Muitos outros senadores, assessores deverão ser investigados. A caixa-preta do Senado precisa ser aberta antes que ela desapareça definitivamente no mar e não seja possível mais ter contato com o que vem acontecendo há tempos e que causou tantos erros e desastres, com contratações e atitudes incompatíveis com uma Casa que deve honrar o seu nome.
O Senado está devendo uma resposta convincente a todos nós. A cada dia que passa, a reputação dessa instituição torna-se mais corroída. Os fatos são gritantes e, acima de tudo, extremamente comprometedores. É impossível escondê-los embaixo do tapete por maior que seja o tapete.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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