O equilibrado e o equilibrista
Sandra R.S. Baldessin
Lembro-me de ter ouvido muitas vezes a frase: só é louco quem rasga dinheiro. Até faz sentido, de acordo com a lógica mercantilista que rege a nossa sociedade, onde o termo valor remete imediatamente ao tinido de caixas registradoras.
Nesse caso, na adolescência estive diante de um desses loucos, que, nu como chegou ao mundo, rasgava notas numa plácida tarde de segunda-feira, alarmando toda a vizinhança. O protagonista dessa história foi uma figura folclórica da Rua 1 A, que prefiro não nomear em respeito à sua memória e à sua família.
Recordo esse fato por conta de um livro muito interessante que acabei de ler, Louco para ser normal, obra do psicanalista e escritor britânico Adam Phillips, publicado no Brasil pela Editora Zahar.
O livro faz uma crítica à glamourização da loucura, que ocorreu a partir da década de 1970, transformando-a em modismo e contribuindo para que muitas concepções erradas sobre a sanidade e a insanidade fossem disseminadas.
A principal proposta do livro é discutir a nossa insistência em criar categorias para as coisas normais e as anormais. Nesse sentido, Adam afirma que, em vez de inventar parâmetros para definir quem se enquadra na normalidade, deveríamos pensar nos propósitos dos comportamentos. Por exemplo: qual o propósito do ataque de pânico para um determinado indivíduo?
É sob esse aspecto do pensar propósitos que a teoria de Adam se torna complexa, pois estamos convencidos que é mais fácil e produtivo obter uma receita e ir à farmácia comprar um dos muitos remédios à disposição para controlar nossas esquisitices, nossas angústias naturais. Afinal, somos humanos e ainda não inventaram uma droga para nos curar dessa condição vulnerável.
Por outro lado, também é loucura, como o título do livro sugere, essa busca pela normalidade, isto é, por regular nossos comportamentos segundo padrões que, supostamente, refletem a sanidade. Concordo inteiramente!
Aliás, acredito que muitas das nossas esquisitices nos protegem de enlouquecer, são como rituais em defesa da nossa individualidade, da possibilidade de ser único e conviver com outros seres únicos. O foco não pode estar na supervalorização da loucura, como já ocorreu, e nem da sanidade, como acontece agora.
Fico pensando com os meus botões que o segredo é manter em harmonia esses dois seres que ocupam nosso corpo: o equilibrado e o equilibrista. O equilibrado com suas normas e o equilibrista com sua sombrinha, fazendo peripécias para distrair a loucura que acena desde o abismo.
(A colaboradora é escritora e consultora em Comunicação Escrita. sbaldessin@gmail.com)
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