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20/03/2010 - 07h47 Comunicar Erro E-Mail Espalhe aos amigos E-Mail
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Cirurgia com música

TOQUE RÁPIDO

Cirurgia com música

Jaime Leitão

Imagine uma cirurgia no cérebro em que os cirurgiões colocam música enquanto operam o paciente. A princípio pensamos se tratar de música de fundo para inspirar os neurocirurgiões a realizar uma cirurgia precisa, próxima da perfeição enquanto o paciente, anestesiado, dorme profundamente.
Não, não se trata disso, mas de uma cirurgia revolucionária que aconteceu recentemente em Nova York e que foi noticiada pela rede BBC. Enquanto era operado para a instalação de um marcapasso no cérebro, que diminuísse os tremores que o atacavam nos últimos anos, principalmente nos braços e nas mãos, o violinista Roger Fish tocou violino para os médicos.
Parece cena de filme ou de peça teatral de Ionesco ou Arrabal, mestres do teatro do absurdo. O violonista, bem acordado, tocou para que os neurologistas identificassem o local exato no cérebro que estava sendo responsável pelos chamados “tremores essenciais”, a síndrome que acometeu o violinista, praticamente impedindo-o de tocar em público. O violino sempre foi a sua paixão, por esse motivo topou o desafio feito pelos médicos. Para voltar a tocar sem tremer, era capaz de tudo. E foi, com fé e coragem, para a mesa, carregando o violino que o acompanha nos concertos como um amigo inseparável.
Essa técnica, conhecida como estímulo cerebral profundo, é utilizada normalmente para o tratamento do mal de Parkinson, mas ela avançou tanto que já pode ser usada para curar outros distúrbios motores que também provocam tremores.
A cirurgia, considerada um sucesso, possibilitará a volta do violonista Roger Fish em breve aos palcos. Sem tremer, e agora ainda mais conhecido por ter tocado durante a cirurgia a que foi submetido, o violinista terá com certeza um público bem maior a ouvi-lo na sua primeira apresentação após a cirurgia.
A música clássica, principalmente, poderia ser utilizada como música de fundo em algumas cirurgias, já que os médicos têm uma jornada diária estressante e um Bach ou um Mozart ajudariam a relaxá-los um pouco, sem que perdessem a concentração. Já o paciente tocar um instrumento enquanto é operado deverá continuar sendo um evento raro, porque exige do doente uma energia incrível, que nem todos possuem.
Em algumas UTIs, os pacientes internados já passam algumas horas por dia ouvindo músicas que colaboram para a recuperação dos mesmos, acalmando-os numa situação-limite, em que, além dos tratamentos convencionais, necessitam ter contato com algo que os desligue um pouco daquela condição extremamente difícil.
A cena do violonista tocando enquanto é operado não sai da minha cabeça. Pretendo escrever uma micropeça teatral a partir dela. Se conseguir, colocarei no meu blog: www.micropecas.blogspot.com.

(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação jaimeleitao@linkway.com.br)
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