O homem e sua montanha
Sandra R.S. Baldessin
Dia desses o Jornal Cidade trouxe uma reportagem sobre o aumento do número de suicídios em nossa cidade, lembrando, também, que essa estatística tem crescido em todos os lugares do mundo.
Fiquei pensando sobre o assunto, e sobre os motivos que poderiam levar alguém a desistir de continuar. Sim, pois é a noção de desistência que permeia o conceito de suicídio nas sociedades ocidentais.
Digo isso, porque há outras culturas que encaram esse ato com naturalidade e, por mais incrível que nos pareça, na Holanda existe até mesmo uma organização pró-suicídio, que criou um site onde oferece dicas de como fazê-lo, embora o governo holandês proíba a prática de auxílio ao suicida. Surreal!
Para a filosofia, é um tema controverso. Para o cristianismo, é uma espécie de pecado mortal. Já o islamismo não considera como suicídio a opção pela morte feita pelos homens-bomba, fanáticos que morrem em troca de garantir um lugar privilegiado no paraíso. É preciso que se diga que o Alcorão condena essa postura, afirmando que ninguém tem o direito de antecipar a própria morte.
Os Estados Unidos não tÊm homens-bomba, mas quem explica a fúria suicida dos que invadem as universidades, matam pessoas com as quais convivem diariamente e terminam a história com uma bala entalada no cérebro?
Independente do fato de que não existe uma opinião, sobre qualquer tema, que não seja formatada pela cultura, gosto de pensar que a vida é sagrada. Mas, então fica a pergunta: sagrada, consagrada para quê?
Alguns encontram essa resposta na fé; outros, na caridade, no voluntariado. Uma das respostas mais fascinantes é oferecida pelo admirável escritor francês Albert Camus, autor de expressivas obras da literatura mundial.
Para falar desse tema, Camus elege o mito grego que relata a história de Sísifo, personagem condenado a arrastar uma gigantesca pedra até o topo de uma montanha, e, mal ele a coloca no lugar, a pedra rola, obrigando-o a recomeçar.
Camus inventou um novo olhar sobre o mito ao negar a característica de maldição à tarefa imposta a Sísifo. Recomeçar, sob a ótica desse escritor, é bênção e não condenação.
Aprendo, com a visão de Camus, que o grande motivo para continuar não está na possibilidade de que em algum momento a pedra permaneça firme no topo da montanha, coroando de êxito a missão.
Podemos ver Sísifo derrotado pela montanha, ou observá-lo derrotando-a, ao retomar sua tarefa. O que pode nos motivar, sempre, é a possibilidade de recomeçar. A certeza de que a voz da vida está sussurrando ao nosso ouvido, dizendo que a própria luta para alcançar o topo da montanha já é razão que baste para dar sentido à nossa existência.
(A colaboradora é escritora e consultora em Comunicação Escrita. sbaldessin@gmail.com)
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