Estão colocando o bode russo no Daae
Nevoeiro Júnior
Faz parte do anedotário do falido comunismo a fábula de que, no período de implantação do famigerado regime na Rússia, muitas famílias passaram a viver juntas numa mesma casa. Entre outras coisas, compartilhavam o uso de banheiro e cozinha, o que gerava um enorme desconforto. As pessoas que lá viviam procuraram o inspetor do estado para reclamar e pedir que cada qual tivesse a própria casa. Tantas foram as queixas que, num determinado dia de inverno extremamente rigoroso, o inspetor mandou colocar um bode naquela já promíscua casa. Recomendou que todo cuidado devesse ser tomado, uma vez que o animal era propriedade, como tudo naquele momento, do governo.
Diz a fábula que o bode defecava pela casa, malcheiroso como todo animal da sua espécie, e ainda comia roupas suadas, onde o sal se fazia presente.
Passados alguns dias, todos os moradores procuraram o inspetor do estado e, em decisão unânime, pediram a retirada do bode.
Com a saída do animal, todos tiveram uma sensação de muito alívio e conforto.
Tenho observado que o atual governo municipal, numa atitude adredemente preparada, vem desmontando, sucateando o Daae, além de fazer uma verdadeira farra no pagamento de terceirizações. Coisa tão criticada pelo atual prefeito e os partidos que o apoiam.
O Daae deve viver com sessenta por cento do que recebe da tarifa que pagamos. Precisamente, esses recursos são absolutamente suficientes para garantir uma adequada remuneração aos que lá militam e ao mesmo tempo realizar os investimentos complementares na captação e distribuição da água.
Vejo com muita preocupação os exagerados gastos com terceirizações, tão criticadas por eles, tais como a assistência que a Cebi presta há muitos anos em Rio Claro, só que agora com mais de 60% de aumento. Somente para a referida empresa, o Daae, que gastava cinco por cento de sua receita líquida, passa a gastar mais de oito por cento.
Noticia a imprensa a contratação de uma outra terceirizada, para auditar a PPP, dando conta de que seu endereço é numa imobiliária.
Vejo que a aferição dos gastos mensais dos consumidores já não mais é feita pelo Daae, e sim pela Foz do Brasil, nossa parceira no tratamento de esgoto.
Caro leitor, moro na mesma casa há quase trinta anos, basicamente numa baixada, onde em nenhum momento nesta quase existência de uma vida sofremos com a falta de água.
De janeiro para cá a única mudança importante naquela autarquia foi do indigitado superintendente que, dependendo do fígado do momento, trata de forma vil os funcionários daquela autarquia.
Ora, é de se perguntar: se apenas houve a mudança diretiva com a mudança de governo e daí para frente a falta de água vem acontecendo, não parece um pouco com a história do bode russo? Este sucateamento não é um preparo para entregar para um outro parceiro os serviços de água que, se repita, funcionava de forma absolutamente correta até 31 de dezembro?
A cada dia, com a piora dos serviços de água e as reclamações do Fudêncio, caracteriza-se que, de forma adrede, prepara-se a transferência do serviço de água a um parceiro privado e muito provavelmente a um preço vil.
Concluo com as sábias palavras do então deputado Otávio Mangabeira, na defesa que fazia de Carlos Lacerda e dizia "por baixo desse angu tem osso".
É, eleitor, vindo de quem vem tal conduta, a história do bode russo no início deste artigo se aplica como luva, precisamente a perda de qualidade do serviço. Piorar sempre, piorar ainda mais, a falta de água que repito nunca existiu em trinta anos, e assim criar condições para a transferência a uma empresa privada. Quando então as coisas melhorarem, teremos toda a sensação de que o bode foi retirado da sala.
(O colaborador é sociólogo e ex-prefeito de Rio Claro - www.twitter.com/nevoeirojunior - E-mail:nevoeirojr@terra.com.br)
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