Perigos invisíveis
Jaime Leitão
O grande escritor mineiro João Guimarães Rosa escreveu que “Viver é muito perigoso”. E é, mas sem o contato com o perigo, não saímos do lugar, não nos aventuramos em nada e caímos em um perigo de outra natureza, o de vivermos fechados, ilhados, sem nos relacionarmos com o mundo e com as pessoas.
Só que há um limite para os perigos. Viver a cada momento assustado com crimes e mais crimes ocorrendo a nossa volta é angustiante demais. Quinta-feira à noite, próximo a Araras, cerca de dez criminosos assaltaram dois carros-fortes, utilizando fuzis e metralhadoras, renderam o motorista de um ônibus e colocaram o veículo como barreira no meio da pista para impedir o fluxo na rodovia. Um motorista, passando naquele momento pelo local, em um Toyota, foi atingido por uma bala e provavelmente morreu sem entender direito o que se passava. Esse perigo aparentemente invisível em poucos segundos torna-se visível e pode custar vidas como custou a do empresário Ivo Zanatto. Os carros-fortes, apesar do nome, são alvos vulneráveis, e a sua força se concentra nos valores que carregam, atraindo quadrilhas organizadas.
Como diminuir o perigo a um patamar aceitável? É necessário pensar em formas mais seguras de transportar grandes valores para que as viagens de pessoas que nem imaginam o perigo que correm não sejam interrompidas dessa maneira bruta, cruel.
Nos Estados Unidos, anteontem, na maior base militar norte-americana, o Forte Hood, um oficial psiquiatra, muçulmano de origem palestina, Nidal Malik Hassan, empunhando duas armas, atirou contra os colegas no momento em que se realizava uma cerimônia de formatura de soldados, matando 13 pessoas e ferindo outras 31.
A sua função na Base era tratar de soldados e oficiais feridos em combate, traumatizados de guerra ou em fase de preparação para servir em áreas de conflito. As primeiras investigações apontam para o medo do psiquiatra de servir no Iraque, fato esse que deveria ocorrer em breve. Outra possibilidade aventada é de um ataque terrorista. Quem poderia imaginar que o perigo estivesse presente lá e que fosse explodir como um ato violento contra militares, pelas mãos de um psiquiatra?
Seria muito bom controlar o uso de armas. Quantos crimes deixariam de ocorrer se nas casas não houvesse armas guardadas em um armário ou em uma gaveta, que são pegas por alguém que, em crise psicológica, pode fazer o pior. E procurar o diálogo e ajudar quem está em crise também é de grande valia.
Não podemos decretar o fim de todos os perigos, mas devemos tentar lidar com eles, procurando minimizá-los ao máximo para que a nossa vida e de nossos amigos e parentes sigam o seu rumo com um pouco menos de atropelos, baques e imprevistos tão assustadores.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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