O prefeito e a propina
Jaime Leitão
Uma cena rara no país é um prefeito sendo pego com a mão na massa, negociando propina com um dono de empreiteira. Tão rara que foi mostrada no Jornal Nacional e em outros noticiários da Globo várias vezes, flagrando o prefeito da pequena cidade de Monte Castelo, na região de Presidente Prudente, recebendo parte do que havia pedido ao empreiteiro Edmar Gomes de Ribeiro. O prefeito Odair Síllis reclamou do pagamento só de 4 mil reais na primeira parcela, já que o combinado era pagar 8 mil.
Monte Castelo tem pouco mais de 4.000 habitantes e a população mostrou-se indignada de uma tal forma que fará pressão para que o prefeito seja afastado rápido do cargo. Em cidades maiores, um fato grave como esse não costuma ter a mesma repercussão. Infelizmente. A indignação precisa crescer sempre, nunca diminuir. Só ela levará a uma mudança no comportamento de uma grande parcela de políticos.
O comentarista Alexandre Garcia falou no “Bom dia, Brasil” algo que eu havia pensado logo que vi a notícia pela primeira vez. Segundo ele, pelos menos uns quinhentos prefeitos ficaram assustados quando ouviram sobre a filmagem de um ato de corrupção em uma prefeitura, pensando que pudesse ser com eles. Não sei se são quinhentos, mas calculo um número bem alto de prefeitos e vereadores envolvidos em operações ilícitas com o dinheiro público.
A dificuldade é encontrar um dono de empreiteira que tope participar de um flagrante dessa natureza. E é por esse motivo principalmente que a corrupção continua firme e forte no País, sendo muito difícil desmantelá-la.
A denúncia envolve também o engenheiro civil Thiago Rossi, acusado de cobrar R$ 2 mil por medição realizada, fora o salário que recebe da Prefeitura, e de ter ordenado ao empreiteiro que comprometesse a qualidade da obra para que custasse mais barato e sobrasse mais dinheiro para eles.
A obra em questão é uma creche, que construída com material de segunda ou terceira, já está ameaçando desabar antes de pronta, segundo o empreiteiro. Só de imaginar crianças vítimas de um desabamento por negligência aumenta a minha revolta e de todos aqueles que são conscientes e assistiram ao depoimento do construtor.
A minha pergunta é: quantas escolas e creches por aí, construídas com dinheiro público, recebido do governo federal, não são feitas dessa forma irresponsável, superfaturadas e negociadas em suborno com empreiteiras e funcionários das prefeituras?
Essa creche que custou R$ 1 milhão dificilmente resistirá em pé por muito tempo. Falta fiscalização por parte do governo federal quando destina verbas a prefeituras.
A máquina pública não pode continuar sendo sugada por aves de rapina que devoram tudo o que podem, com menosprezo total pela população e pela vida das crianças.
Não dá mais para suportar isso. É indecoroso.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
| < Anterior | Próximo > |
|---|

