Amigos, amigos...
Jaime Leitão
Política à parte. A frase do senso comum é: Amigos, amigos, negócios à parte . Voltando para a realidade da administração pública, a amizade não deveria em hipótese alguma substituir a competência de quem exerce um cargo de confiança. Mas infelizmente nem sempre funciona assim. Muitos prefeitos, governadores e outros políticos no executivo carregam nas costas seus amigos, mesmo que a opinião pública e a própria equipe percebam a incapacidade de certos amigos de cumprir com a tarefa que lhes foi atribuída.
Essa fidelidade incondicional aos amigos transforma uma administração em um território minado, que compromete o administrador e expõe a sua fraqueza na hora de mudar para administrar a cidade de forma condizente com as necessidades.
Lula era amigo de José Dirceu e de Palocci, mas as denúncias contra eles foram tão contundentes que foi impossível mantê-los como ministros. Esse exemplo deveria servir para outros administradores, que parecem não perceber o desgaste que sofrem por adiar atitudes que poderiam contribuir para a melhora da sua avaliação por pessoas que observam, de fora, fatos que ocorrem e que exigem atitudes firmes.
Além dos amigos, há os fiéis seguidores que, por terem participado de todos os comícios no palanque, ao lado do então candidato, não podem ser abandonados mesmo que não estejam se dando bem no cargo para o qual foram escolhidos. A maior fidelidade deve ser aos eleitores, à população, não a um grupo de pessoas que concorda com tudo que é dito pelo chefe, engrossando o cordão dos puxa-sacos, não fazendo nada que mereça destaque em termos de contribuição técnica.
Nem todo administrador age assim, colocando os amigos num guarda-chuva protetor, aguentando todo tipo de crítica, sem mexer naqueles cargos que necessitam de mudança urgente. É raro, mas existe o político corajoso, independente, que muda secretários, sabendo que poderá perder um amigo caso aja dessa forma, mas que não teme a possibilidade de isso ocorrer. Essa mudança aponta para a existência de um político que tem visão além dos acordos feitos em período pré-eleitoral e que raciocina a partir da observação que faz do rendimento de cada um. Dos conflitos, ele prefere os que acontecerão dentro do seu partido ou da sua coligação, não com os interesses da cidade e da população.
A amizade verdadeira não deve estar ligada à promessa de um cargo; cargos administrativos ou de assessoria não podem ser preenchidos em primeiro lugar pelos amigos, deixando para quem tem competência comprovada um lugarzinho lá no último escalão, só para constar.
Há formas e formas de fazer política. O critério da amizade para escolha de uma equipe não é o melhor deles, eu diria que é o mais perigoso e nefasto. Política deixou há muito tempo de ser uma prática caseira, familiar. Não deixou? Deveria.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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