Alimentos vencidos e estragados
Jaime Leitão
Só de pronunciar em voz alta a expressão “alimentos estragados” me dá uma sensação muito desagradável. Alimento deve estar ligado à ideia de limpeza, de cuidado, mas muitas vezes isso não acontece. Imagine então sentir o cheiro de alimentos vencidos, como aconteceu com os vizinhos do local em São Paulo onde estavam armazenadas 30 toneladas desse produtos impróprios para consumo. Pior ainda, imagine comer um pedaço de frango, de carne de porco ou uma salsicha podre. Desculpe-me pela interlocução um tanto desagradável. Mas foi uma forma de remeter à reflexão mais próxima de um fato que foi denunciado ontem: esses alimentos vencidos, colocados em embalagens novas, eram vendidos para escolas municipais, hospitais e presídios do Estado de São Paulo e de Minas Gerais.
Quantas crianças e pacientes de hospitais terão se contaminado ou até morrido por terem ingerido esses alimentos? Uma pergunta puxa a outra: há quanto tempo isso estava acontecendo e quais cidades serviram esses alimentos deteriorados? De quem é a responsabilidade por esse crime gravíssimo? Dos prefeitos? Dos fiscais da saúde?
Os que foram presos têm muito a esclarecer, porque eles são só a ponta de um esquema que deve ter tentáculos poderosos. Fora esse depósito, quantos outros não há por aí guardando em tanques imundos salsichas e carnes esperando a hora de serem colocadas em embalagens novinhas para enganar os consumidores?
Em maio de 2008, fiquei estarrecido quando li que fiscais de saúde do Rio de Janeiro descobriram alimentos com validade vencida em restaurantes de dois dos mais tradicionais hotéis daquela cidade: o Copacabana Palace e o Glória. Se os restaurantes desses hotéis de luxo serviam comidas elaboradas com alguns ingredientes vencidos, o que pensar em relação à comida que é servida em escolas, creches e hospitais?
Essa apreensão acende a luz vermelha da necessidade de fiscalizar de forma cada vez mais dura os produtos que são comprados por prefeituras e também os que são armazenados e utilizados em restaurantes, nos mais simples e nos mais sofisticados.
Não se pode brincar com a saúde humana. Intoxicações alimentares podem ser letais, ainda mais quando o clima esquenta, nesse período de primavera com temperatura de verão.
O Poder Público é responsável por tudo que é servido à população. Sem uma fiscalização rígida, os riscos continuarão altos. Manipular alimentos é outra fase que necessita de muita higiene. E que os mesmos sejam confiáveis, estejam dentro do prazo de validade e não passem por essa maquiagem assassina que pode levar a infecções e até à morte.
No Brasil, acontecem fatos que não poderiam ocorrer de forma alguma. Isso em três dos Estados mais desenvolvidos: Minas, São Paulo e Rio de Janeiro. Eu me pergunto: e nos demais?
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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