O spray da memória
Jaime Leitão
Imagine a situação: você chega a uma festa de família e nela estão presentes parentes que você não vê há muitos anos. Olha para uma prima que foi sua amiga quando eram adolescentes e você não consegue de jeito nenhum se lembrar do nome dela: será Magali, Marli? Não querendo errar, você pergunta ao garçom onde fica o toalete e lá aspira 2 ml do spray da memória. No mesmo momento, você se lembra que o nome dela é Derly, o marido chama-se Ricardo, e todos os outros nomes de parentes vão surgindo na sua cabeça, um após outro, ao encontrar na festa. Que maravilha.
O que eu escrevi acima é ficção, mas poderá deixar de ser daqui a alguns anos. Pesquisadores da Universidade Lubeck, da Alemanha, testaram o chamado “spray da memória” em voluntários”. Aqueles que receberam o legítimo, com a substância interleucina 6, presente no sistema de defesa do nosso corpo, lembraram-se no dia seguinte de vários trechos de um texto lido no dia anterior. Os que receberam spray de placebo, que não passava de água, se lembraram bem menos do que os primeiros.
Os cientistas ficaram entusiasmados com o resultado e já pensam, após mais estudos, em passar a produzir o spray em larga escala, acreditando que ele possa contribuir para melhorar a memória de pacientes de doenças degenerativas como o Mal de Alzheimer e também de pessoas sem doença nenhuma diagnosticada, mas que não se lembram do número nem do próprio celular.
Como seria bom ter um spray de memória nas mais diversas situações. Encontramos um ex-colega, que trabalhou conosco em alguma empresa há quinze ou vinte anos, lembramos do seu rosto, mas do seu nome, nem pensar. E ele fala de propósito: - Não está me reconhecendo? E você: - Claro que estou. Aí ele: - Qual o meu nome, então? O spray de memória, usado discretamente, como se fosse um spray para mau hálito, poderia resolver o problema.
Mas já penso em um efeito colateral. De tanto usar o spray da memória, a pessoa pode se acomodar e não conseguir mais se lembrar de nada por si. Aí, no dia em que ela esquecer em casa, poderá ser acometida por uma amnésia total.
O nosso cérebro precisa de treino constante: muita leitura, palavras cruzadas, memorização de números de telefone, senhas, para que novos neurônios nasçam. Se atribuirmos à agenda do celular e do computador a responsabilidade de nos lembrar de tudo, ficaremos com o cérebro preguiçoso muito cedo. O spray de memória pode ser bom em uma emergência e em tratamentos de pessoas que já têm a memória comprometida, mas com critérios, para evitar efeitos opostos.
A memória é um grande patrimônio nosso. Precisamos tratá-la melhor e parar de dar desculpas como: “esqueci” ou “a minha memória é péssima”. De tanto falar mal dela, chegará uma hora em que ela falhará de fato, mas podemos evitar que isso ocorra treinando-a diariamente.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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