Pilotos distraídos
Jaime Leitão
Ser um passageiro distraído é até admissível, pela pressa em que se vive hoje, e eles existem em grande quantidade. Ainda mais se estiver quase em cima da hora do voo, ele passa em uma livraria do aeroporto para comprar um livro ou uma revista e esquece a bagagem de mão. Já quando o avião está decolando, ele percebe que está sem o passaporte. Problema sério, mas pelo menos não envolve outros passageiros.
A questão se complica quando os pilotos se distraem durante o voo e deixam a aeronave no piloto automático, indo para rumo diferente do de destino dos 144 passageiros. Foi isso que aconteceu semana passada nos Estados Unidos. Em vez de descer em Minneapolis, como estava previsto, o avião voou 241 quilômetros além, em direção a Eau Claire, no Wisconsin. Os controladores de voo perderam contato com o comandante e chegaram a pensar que o avião pudesse ter caído. Felizmente isso não aconteceu.
A desculpa dos pilotos foi que eles estavam tendo uma acalorada discussão sobre a política das companhias aéreas, que se distraíram e deixaram passar o aeroporto para o qual seguiam. Que lugar mais fora de propósito para discutir. Não poderiam ter esperado o avião ter chegado ao solo? Nunca sabemos em que mãos estamos em pleno ar.
Não imaginamos que, na cabine de comando do avião, possa estar acontecendo uma discussão. Há suspeitas de que comandante e copiloto estivessem dormindo a sono solto e, por esse motivo, não perceberam que estavam chegando. Outro risco grande é esse, que levanta uma questão antiga e não solucionada: o excesso de horas trabalhadas pelos pilotos e consequente estresse provocado por uma jornada além do limite aceitável.
Já li notícias sobre pilotos em alguns países que são usuários de drogas e de anfetaminas e que as utilizam durante os voos para permanecer ligados. Seja qual for o motivo desse erro inconcebível, ele deve ser apurado para que outras distrações não ocorram e não ameacem a vida dos passageiros.
Já que o assunto é distração, eu me lembrei agora de uma reportagem a que assisti há alguns dias e que mostrou tudo o que é esquecido na seção de Achados e Perdidos, do sistema de transportes de Londres: dezenas de dentaduras, animais empalhados, cadeiras de rodas, um chapéu nazista, uma espada de samurai, um macaco de pelúcia, uma boia. O funcionário responsável pelo departamento afirmou que 40% dos bens perdidos são procurados e devolvidos. Os outros 60% vão a leilão ou são doados a instituições de caridade.
A distração de uma pessoa pode pôr fogo na casa, se for esquecida no fogão uma panela cozinhando algo, pode derrubar um avião, causar um acidente de carro e provocar perdas irreparáveis.
Quantos saem de casa sem a carteira e, dentro do ônibus ou no pedágio, percebem que estão sem dinheiro. Fora outras situações que acontecem pela correria sem fim.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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