A desconstrução de um mito

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TOQUE RÁPIDO

A desconstrução de um mito

Jaime Leitão

Durante décadas, a esquerda latino-americana transformou em mito Fidel Castro e a sua revolução em Cuba. De tal forma, que os nossos intelectuais e artistas, como Chico Buarque, Oscar Niemeyer, Fernando Moraes, passaram a incensar Fidel, esquecendo que sob o seu regime não havia o essencial: liberdade de ir e vir e de se expressar. Centenas de opositores ao regime foram fuzilados nas últimas décadas no “paredón”, mas essas execuções não foram suficientes para desconstruir a heroicidade forjada de um regime construído em bases tirânicas e que se mantém há mais de cinquenta anos.
Agora, ao ler o livro “De Cuba, com carinho”, da cubana Yoani Sánchez, é possível entrar na Cuba real, da perseguição política, das carências e da putrefação de um discurso que insiste em se manter atual, apesar de todas as evidências de que apodreceu faz tempo.
A sua autora é formada em Letras, tem 34 anos, e como todos os cubanos que não pertencem à cúpula que governa o país, é proibida de acessar a internet. Só que, de maneira clandestina, ela vem há mais de dois anos contando o cotidiano da vida do cubano comum, em seu blog que é acessado no mundo inteiro e que hoje é um dos mais conhecidos e premiados: Generación Y. Vigiada constantemente por dois guardas à paisana, ela consegue driblar aqueles que a seguem, demonstrando uma coragem extraordinária, apesar do risco que corre.
Numa linguagem sensível e literária, Yoani nos mostra uma Cuba que agoniza enquanto crianças e adolescentes são educados de forma militar, adorando um líder que já deixou o poder, e um outro, seu irmão, que só dá sequência a uma ditadura que provocou a estagnação de um país e que não se abre para novos tempos. Muitos de seus amigos fugiram de lá, mas ela insiste em permanecer porque acredita que o regime está no seu estertor, mais dia, menos dia, se desintegrará.
Yoani escreve sobre a corrupção que se institucionalizou em Cuba, já que para conseguir um quilo de carne, comprar um celular ou qualquer outro produto é necessário recorrer ao mercado ilegal, mesmo assim, é complicada a operação, porque o cubano comum recebe um salário que o impede de adquirir praticamente qualquer bem. Se não fosse a Internet, não conheceríamos com tanta proximidade como a ditadura cubana trata o seu povo e aqueles que ousam desafiá-la.
Nas últimas trinta páginas do livro, o historiador Demétrio Magnoli contextualiza historicamente a Revolução Cubana, desconstruindo-a com argumentos convincentes, demonstrando que o regime de Fidel e agora do seu irmão Raúl se mantém há tantas décadas graças a uma lavagem cerebral, de uma propaganda intensa, que foi muito além das fronteiras daquele país e fez a cabeça de intelectuais que idealizaram uma Cuba que nunca existiu.
Livro excelente, publicado pela Editora Contexto.
Bom domingo.
Com boas leituras.

(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
 

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