Doutores garis

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TOQUE RÁPIDO

Doutores garis

Jaime Leitão

Um amigo me enviou via e-mail a notícia que saiu na “Folha", que eu não havia lido ainda. O título trazia: “Concurso para garis atrai 22 mestres e 45 doutores”. Causou-lhe estranheza fato inacreditável como esse. A mim também.
Lendo o corpo da notícia, informei-me que um concurso para garis no Rio de Janeiro, que exige só a conclusão da quarta série do ensino fundamental, recebeu 109.000 inscrições para um total de 1.400 vagas, quase oitenta candidatos para cada vaga.
A relação candidatos-número de vagas já chama atenção por si só, uma vez que o salário oferecido não é nem um pouco atraente: R$ 468,10, mais tíquete alimentação de R$ 237,90, vale-transporte e plano de saúde. Mas o que provoca espécie mesmo é o fato de 22 mestres e 45 doutores, que defenderam tese de mestrado e doutorado em diversas áreas, em universidades federais, estaduais e particulares, estarem entre os candidatos. A primeira pergunta que faço: por que não estão lecionando em uma universidade particular ou pública?
Trata-se de uma distorção profunda. Professores com pós-graduação, desempregados há um certo tempo, agarram-se ao primeiro concurso que aparece para tentar reorganizar a sua vida e, depois de um período, conseguir algo melhor. E pelo que eu li, a vantagem aparente de possuir maior qualificação pouco influirá na seleção e aprovação dos futuros garis.
O que irá decidir a aprovação será a prova física, que incluirá corrida e outros exercícios para testar a resistência do candidato. Ser gari não é fácil. É necessário ter pernas para varrer todos os dias vários quilômetros de sujeira acumulada no espaço urbano. Um doutor não necessariamente levará vantagem sobre aquele que provavelmente já trabalhou de servente ou de faxineiro em uma empresa.
E quase sempre lemos nos jornais e vemos na televisão que o número de empregos com carteira assinada aumentou. Mas o desemprego está imenso, se não estivesse, não haveria essa concorrência incrível para exercer a função de gari. Notícias como essa são mais representativas do que índices de emprego veiculados por institutos de pesquisa.
Quase todo concurso atrai milhares de candidatos, mesmo com salários nada convidativos. E, para se inscrever em um deles, é necessário ficar horas na fila sem reclamar, embaixo do sol ou da chuva, além de pagar uma taxa.
Ser doutor no Brasil não é garantia de emprego nem na universidade nem na rua, como gari. Ser professor também não. O Brasil real passa muito longe do Brasil dos gabinetes e dos discursos. Praticamente não se cruzam, são situações completamente distintas. Não deveriam.
Com tantas novas universidades particulares surgindo, é de se estranhar que professores e doutores busquem a profissão de gari para sair da miséria. Porque, se não estivessem no sufoco, não entrariam nessa disputa.

(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
 

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