O Judas de Lula

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TOQUE RÁPIDO

O Judas de Lula

Jaime Leitão

Em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”, publicada ontem, o presidente Lula afirmou: “Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria que chamar Judas para fazer coalizão”. A metáfora pode ser entendida de duas maneiras. A primeira é que, na política, toda aliança é válida para conseguir votos e poder, independente da ética e da moral do parceiro. Ética é uma palavra que Lula esqueceu faz bastante tempo. Ele a utilizou muito enquanto era oposição. Quando virou governo, tirou-a de cena definitivamente porque ela o incomoda. Pelo menos é o que parece.
A segunda maneira de entender a metáfora é que até o ser mais puro e superior como Jesus Cristo seria corrompido para conquistar os seus objetivos. E aí há uma comparação nas entrelinhas do presidente com Jesus, tal é o seu messianismo, exposto em larga escala em quase sete anos de governo.
Hoje, Lula está coligado a antigos inimigos viscerais como Collor e José Sarney, que foi salvo recentemente por ele de perder a presidência do Senado, após inúmeras denúncias. Sobre Sarney, há um trecho da entrevista que merece ser destacado. Nele, Lula diz: “A manutenção do Sarney era questão de segurança institucional”. Essa afirmação estranha reforça a tese exposta no livro do jornalista Palmério Dória: “Honoráveis Bandidos”, sobre a influência de Sarney junto ao governo federal. E completou: “A queda do Sarney era o único espaço de poder que a oposição tinha. Iam fazer um inferno neste país”.
Discordo. A manutenção de Sarney é que representa uma ameaça institucional grave e poderá servir de munição para os opositores do governo no embate eleitoral. Cada vez mais surgem evidências das grandes armações feitas por Sarney para se manter no poder e usá-lo como bem entende. O Senado saiu desmoralizado não só aqui, mas em todo o mundo, com as matérias publicadas na imprensa internacional sobre os atos secretos e outras ilegalidades.
A entrevista de Lula nos serve para enxergar a visão frívola de um governante, que esqueceu todo o seu passado de críticas a uma política pragmática, não ideológica, e que quer agora fazer a todo custo o seu sucessor, nem que para isso seja necessário estabelecer coalizão com Judas, o diabo, com quem for.
Na política vale tudo, e não adianta querer mudar. Isso se depreende das palavras de Lula. E ele diz isso sem demonstrar o mínimo desconforto, muito pelo contrário. Essa visão coloca todos os políticos no mesmo patamar, e obriga aqueles que não se enquadram nesse perfil que provem que não aceitam fazer parte desse jogo.
Se quisermos um país melhor, teremos que buscar, por mais difícil que seja, políticos que representem uma mudança de rota. Nessa trajetória atual, a falta de ética é a mão única que nos revela esse país entorpecido por promessas vazias e alianças esdrúxulas.

(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
 

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