Imagens do Rio
Jaime Leitão
Se as autoridades cariocas pudessem, só exibiriam para o exterior imagens do Cristo Redentor, das praias e dos jogos no Maracanã. Mas não é assim que as coisas acontecem. Nos últimos dias, as imagens que apareceram nas principais redes de televisão do mundo foram do confronto entre os traficantes e a polícia, o helicóptero da polícia sendo abatido pelos criminosos, as armas utilizadas no crime, ônibus incendiados, em suma, o Rio que eles não queriam que de forma alguma aparecesse nos noticiários.
Governador, prefeito, ministro da justiça, secretário da segurança, todos tentam justificar o ocorrido como um fato isolado, que não irá prejudicar a segurança da Olimpíada de 2016, reiterando que o Rio é uma cidade segura. Acredite se quiser. O presidente se oferece para ajudar a limpar o Rio. De novo, muito discurso, tentativas de encobrir o que está mais do que à mostra, e falta de atitudes firmes, que deveriam estar sendo implantadas há muito tempo, para combater a violência não só no Rio, mas no Brasil como um todo.
Porque não adianta nada transferir os criminosos do Rio, fazendo-os migrar para o interior ou outros estados. O problema continuará sendo grave e tirando o sossego da população brasileira de outras regiões.
Já há bandidos em grande quantidade espalhados pelo país inteiro, sem espaço para que cheguem novos. Lotação esgotada. Para que não se focalize só a Olimpíada do Rio como meta para garantir mais segurança aos turistas, é necessário criar políticas de educação para todas as crianças, que impeçam que sejam cooptadas pelo crime organizado na adolescência ou ainda na infância.
Não resolve investir todos os recursos na segurança de um ou dois eventos gigantescos, como a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, e deixar o resto do país carente de policiais e de tecnologia para combater a criminalidade, que só tenderá a aumentar se o foco for tão restrito a acontecimentos que são vistos em todo o mundo.
E os efeitos costumam ser desastrosos. O constrangimento das autoridades para demonstrar uma normalidade que não existe, após o que aconteceu no Rio, que mais se parece com uma guerra urbana, ocorrerá de novo se não se pensar na segurança de maneira mais abrangente e duradoura, contemplando a educação e a inclusão da população carente, com oportunidades de emprego, para que as brechas não continuem abertas para que o crime chegue antes do Poder Público e continue agindo com essa desenvoltura e apavorando a todos nós.
Um país não é um cenário montado, ou um filme exibido, todo editado, para conseguir emocionar aqueles que decidem qual será a sede de uma Olimpíada. Um país é o que acontece no seu cotidiano, com suas mazelas, conflitos. E um helicóptero derrubado por criminosos é uma cena real, crua, impossível de se editar para esconder o que ocorreu em toda a sua extensão.
(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
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