Sucatas aéreas

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TOQUE RÁPIDO

Sucatas
aéreas

Jaime Leitão

A queda há três dias de uma aeronave, o Airbus A 310, com 153 passageiros, da Yemenia Air, nas Ilhas Comores, no Oceano Índico, que matou 152 pessoas, com uma única menina sobrevivente, ocorreu, segundo declarações de autoridades francesas, por negligência da empresa, já que o avião que caiu foi proibido de voar em solo francês e europeu depois de inspeções feitas há alguns anos na França.
O ardil criminoso consistiu em utilizar um avião em bom estado, como um A330, bem mais novo, na saída de Paris, trocando-o mais tarde em uma escala, já em território de Comores, por esse avião sem a mínima condição de decolar.
Em entrevista ao jornal Le Monde, o presidente da Associação SOS Viagens, Farid Salihi, classificou a Yemenia Air como companhia-sucata, afirmando: O acidente era previsível, esses aviões não respondem às normas internacionais. A Yemenia é a mais barata das companhias-sucata e tem quase o monopólio desse destino. Se as normas internacionais não permitem, por que não criar um mecanismo para impedi-los definitivamente de voar?
Após o acidente, começaram a surgir as denúncias de que esses aviões não possuem cinto de segurança em muitas poltronas, os compartimentos de bagagem abrem-se e a bagagem cai sobre os passageiros, o sistema de ventilação também é precário.
Se um avião que passa por inspeções frequentes, como o Airbus da Air France, caiu e matou 228 pessoas há pouco mais de um mês, dá para imaginar o risco que representam esses aviões que cobram bem barato, mas que são tragédias antecipadas, prontas a ocorrer a qualquer momento.
Uma lista internacional deverá ser divulgada das companhias aéreas sem a mínima condição de atuar no setor. Eu me pergunto: e os aviões pequenos, alguns com quarenta ou cinquenta anos de idade, será que aqui no Brasil são inspecionados como deveriam?
Também sempre desconfiei daqueles voos fretados que oferecem passagens a preços muito em conta. Não dá para fazer milagre. Só pode haver algo de errado nesse procedimento.
Quantas vidas são ceifadas pela irresponsabilidade de empresários que poderiam atuar em outras aéreas mais simples, nunca transportando tantas vidas. A Rússia e outros países do bloco soviético ainda mantêm funcionando no seu espaço aéreo aviões Tupolev, que são verdadeiros dinossauros voadores, fabricados há várias décadas.
Viajar em um dinossauro ou em uma sucata aérea é loucura, falta do mínimo bom senso. O problema é que quem viaja por essas companhias não possui recursos para comprar passagens em companhias melhores.
Voar não é como andar de bicicleta, apesar que as duas situações exigem responsabilidade tanto das companhias aéreas quanto dos ciclistas. No trânsito terrestre como no trânsito aéreo, muitos acidentes poderiam ser evitados e muitas vidas preservadas.

(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)
 

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