Discurso perdido
Charles Carvalho
A postura da atual administração em colocar na pauta do esquecimento a PPP do Daae e sua revisão demonstra que os compromissos de campanha o vento leva com extrema facilidade e velocidade. Mesmo que a decisão do Tribunal de Contas do Estado não esteja definida sobre o assunto, os indícios de irregularidades foram apontados, bastando apenas vontade política e iniciativa para agir. Se o discurso tomou outro rumo é até compreensível, desde que a postura em campanha fosse outra.
Pelas posturas adotadas, muito provavelmente daqui a um ou dois anos, ao invés da revisão contratual, haja a expansão do objeto do contrato com a privatização de todos os serviços sem exceção, e ninguém da atual administração pode afirmar que isso não acontecerá, pois até o presente momento nada foi realizado em contrário. Qualquer outro argumento somente reforça a insensatez. Entre a demagogia e a falta de cumprimento, ao menos a demagogia não cria nenhuma expectativa.
Outro assunto polêmico foi o projeto de iniciativa popular para barrar as privatizações no serviço público, no entanto, com o apoio dos vereadores da base governista, o projeto foi derrubado, com o PMDB sendo o fiel da balança. Todos notaram sem dificuldades que a atual administração abandonou a tese do projeto, embora na oposição tenha cerrado fileira para que o projeto fosse aprovado, participando de uma grande articulação envolvendo os mais diversos setores da sociedade civil.
Na mesma dose de incoerência, o governo Altimari conseguiu aprovar o empréstimo para as obras contra enchentes no Jardim Inocoop, cuja preocupação é louvável e pertinente, mas na oposição houve um grande pacto contra qualquer empréstimo vultoso a ser pago a perder de vista, mais uma clara demonstração de que, se o eleitor é displicente, o administrador não deixa por menos. Não existe o crime de perjúrio na política, permitindo que o candidato fale o que bem entender.
Todos que participaram da luta para ver aprovado um projeto reputado como importante sentiram-se de alguma forma ludibriados, afinal PMDB e PT foram partícipes desse movimento. São comportamentos que deveriam ser mais bem cuidados para o bem da política.
A tendência é que mais serviços sejam privatizados sem nenhum alarde, o que deve reforçar o papel de fiscalização da sociedade civil, já que não há boa vontade política de cumprir promessas e, quando tal postura prevalece, o antídoto é organizar a sociedade civil para exercer o controle externo. É muito ruim quando o controle externo participa, o ideal seria cumprir os projetos que foram apresentados.
Assistimos aos mais variados exemplos e estamos acostumados que muito do que se escreve e fala serve apenas para o momento da oportunidade, da vitória eleitoral, bem por isso, emprestando o exemplo do cenário estadual, Maluf sinaliza apoio a eventual candidatura do Palocci em São Paulo como velhos companheiros da causa socialista. A ideologia desapareceu por completo, hoje o espaço da política ideológica é massacrado pela governabilidade, que é o álibi que os governos FHC e Lula encontraram para justificar o injustificável.
Não é de se duvidar que o projeto do PT para São Paulo seja idealizado por Maluf e que o PSDB estranhe o DEM. Todos esses comportamentos refletem em Legislativos perdidos, atônitos, sem nenhuma expressão, apenas capturados pela vontade do Exército e pelas vantagens distribuídas. Onde vale a força da pior espécie de Poder, o discurso não passa de uma maneira própria de distribuir engodos.
(O colaborador é advogado. E-mail: charlesrc2@bol.com.br)
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