Charles Carvalho
Na semana passada, Rio Claro perdeu um dos mais fanáticos e ilustres torcedores do Velo, o estimado Álvaro Sebastião Lopes, uma figura cuja história se confunde com a do clube e com os bairros Saúde e Copacabana, onde era a casa do Álvaro e, por coincidência, morada do Velo. O bairro sem o Álvaro tremulando a camisa rubro-verde pelas suas ruas perde um pouco do seu encanto, mas certamente lá do céu ele continua convicto, com a camisa de tantos feitos e comemorações que o tempo não é capaz de apagar. Raramente ele era visto sem estar devidamente trajado, a camisa do Velo para ele era de fato a segunda pele.
Os velistas aprenderam a admirá-lo pelo seu jeito simples, despojado e fraternal, sempre disposto a colaborar dentro de suas possibilidades, participando da história do clube, resgatando sua memória de uma maneira inesgotável de alegria. O seu espírito de torcedor era elevado. Sem pessimismo, ele sempre concebeu o Velo como o melhor entre os melhores, pouco importando a divisão disputada. Sua verve velista foi para a mídia com defesas intransigentes do modo velista de ser, o que nunca precisou ser explicado, apenas reverenciado.
Todos os dias e a qualquer hora era possível ver o Álvaro com a camisa do Velo, numa reverência como o militar com a sua farda, como num grandioso desfile. O futebol para ele era um combustível, um elixir. Seus duelos com os rio-claristas alimentavam a boa rivalidade. Quanta vezes na arquibancada do Benitão ele professava resultados, fazia prognósticos das vitórias e nunca aceitava jogar a toalha, por mais desfavorável que fosse o resultado. Sua birra com o Rio Claro lhe rendeu saudáveis polêmicas e crônicas, para deleite da torcida velista e contestação dos rio-claristas. Um dérbi era uma razão para viver. A junção Velo/Álvaro sempre rendeu contos e polêmicas. Era uma figura que aprendeu a conquistar amigos como torcedor de futebol, assíduo frequentador até dos treinos do Velo, nunca perdeu a esperança de ver o time em dias melhores, revivendo suas eternas glórias, marcadas por tradição e paixão de uma torcida que como ele nunca perde a fé.
Numa sociedade onde pequenas alegrias são tão descartáveis, desprezadas, Álvaro viveu na simplicidade a alegria e o prazer de encontrar no futebol, no Velo, uma fonte de lazer e satisfação, produtos baratos, mas que enchem o coração. São nestas pequenas ocasiões, num gol do Velo, que ele sorria mais forte e saía de cada jogo com o dever cumprido.
Outra fonte de paixão era o São Paulo, mais remota, mas com a mesma intensidade e devoção. Como são-paulino e velista como ele, eu perguntei o que ele faria num jogo São Paulo X Velo, ele disse: prefiro não ver. Mas no fundo sempre falaram mais alto os ventos do Benitão, do nosso imortal estádio, acanhado, contestado e um dos mais carismáticos que já se viram, que guarda a mística da camisa vermelha fazendo com que os adversários possam respeitá-lo e temê-lo.
O legado de torcedores como o Álvaro é a concepção do esporte como fonte inesgotável de bons valores e de como podemos viver a paixão do esporte sem vaidades pessoais, apenas pelo capricho de ver seu time atuando seja em qualquer lugar. Vai com Deus, amigo Álvaro, sua história como velista e ser humano será sempre lembrada e, quando a camisa vermelha entrar em campo, sempre vamos enxergá-lo na arquibancada, no seu lugar cativo de torcedor número 1.
(O colaborador é advogado - charlesrc2@bol.com.br)
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