Descontrole

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Descontrole

Charles Carvalho

O escândalo da farra com passagens aéreas é mais uma demonstração cabal da falta de limites e decência com o dinheiro público, para dizer que quase tudo é possível com o dinheiro alheio. Enquanto o sacrifício bate à porta do trabalhador, com a crise que se prolonga, não há nenhum gesto diferente por parte do Congresso, que não se dispõe a conter gastos. O eleitor deveria prestar um pouco mais de atenção para não passar por marionete num sistema que tem muito mais reproduzido chicanas do que serviços relevantes.
São milhões consumidos com viagens de parentes, apaniguados para tratar de assuntos particulares sem nenhuma relação com os mandatos. Estas ocorrências são antigas e nenhum presidente do Congresso adotou qualquer postura para disciplinar ou coibir este uso, muito pelo contrário, foram favorecidos. Como justificar a viagem de parentes para acompanhar parlamentares até no exterior, num grande deboche. Para não ser feita injustiça, parlamentares do PSOL e do PV brandiram no deserto, mas nada que a base aliada e setores do PSDB e DEM não abafassem.
Toda contensão e planejamento que existe na iniciativa privada são frutos do reconhecimento dos custos que existem em qualquer atividade e tudo é feito para administrar estas contingências em conciliação com encargos, despesas, investimentos, e qualquer erro pode custar a saúde financeira de uma empresa de forma irreversível. Já nas instituições públicas, em sua maioria, não há esta preocupação, sequer os dirigentes se predispõem ao diálogo, num desprezo sem precedentes, considerando que a receita formada vem do conjunto da população miserável ou abastada e acaba canalizada para toda sorte de gastos abusivos, sem controle.
Usar dinheiro público para parentes viajarem para todo o mundo, com conforto e mordomias, revela que somos, além de um país atrasado, essencialmente com péssimos exemplos, e demonstra qual a real intenção de muitos parlamentares, ou seja, apenas usufruir de condições privilegiadas. Nos executivos a farra também existe, são prefeitos, governadores que, no cargo, ficam deslumbrados e avançam sobre todo tipo de gasto, utilizando pretextos baratos.
Por obra da fiscalização do Ministério Público foi possível até agora afastar a chaga do nepotismo que sempre sorveu dinheiro público. A realidade é que o controle foi exercido externamente, quando era obrigação ser exercido internamente pelo parlamento como uma prática rotineira e inerente à atividade.
Daí a importância dos Tribunais de Contas e Ministério Público agirem com rigor sobre a malversação, apurando e pedindo punições condizentes com os desmandos. Embora tenha evoluído sensivelmente o exercício da cidadania, ainda falta muito para a sociedade organizada estar separada e independente do Poder Público, apenas exercendo o controle coletivo, sem qualquer participação institucional, para não haver contaminação de interesses.
Toda dificuldade para melhorar nossas instituições acaba esbarrando em interesses próprios, no corporativismo negativo, nocivo, que sempre encontra desculpas para todo esbanjamento com o dinheiro público. Que as novas gerações que possam chegar ao Poder mudem de mentalidade e possam construir boas instituições, este pode ser o alento.

(O colaborador é advogado - charlesrc2@bol.com.br)
 

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