O maior
dos pecados
Charles Carvalho
A violência contra a criança ainda é problema muito sério e merece constante atenção e monitoramento das autoridades, pais e educadores. Essa forma de violência nasce em casa, tornando-se silenciosa, produzindo danos de várias ordens e a pior violência é a sexual, os abusos cometidos, cujo trauma vai acompanhar a pessoa pelo resto de sua vida.
A polêmica formada em torno da posição da Igreja Católica sobre o aborto autorizado da menina grávida de gêmeos recebeu o estrondoso repúdio de inúmeras vozes da sociedade, com toda razão.
Uma igreja que tem por vocação cuidar dos aflitos, dos enfermos, dos desiguais, tem por obrigação receber de braços abertos uma mãe angustiada, perdida entre tragédias, sem saber onde buscar amparo. A conduta do bispo de Recife e Olinda em excomungar a mãe da menina e os médicos certamente foi respaldada por seus superiores na hierarquia da igreja, o que significa dizer que foi a posição oficial e não apenas pessoal do bispo, embora ele seja ferrenho defensor da excomunhão.
Na visão da igreja, ela até pode perdoar a tragédia na perspectiva do causador dela, afinal pode ser compreendido que a misericórdia, o perdão, é um ato de desprendimento e generosidade em todos os sentidos. Em meio ao turbilhão, o bispo não consolou a menina, não pediu que rezassem por ela, não acolheu a mãe que conseguiu enxergar com quem convivia, preferiu aplicar sanções obscuras, inquisitoriais, que não ajudam em nada, antes aumentam o estado de insegurança, medo e vergonha tanto da menina, como da mãe. Houve indiretamente um incitamento a discriminar estas pessoas como se elas fossem culpadas por serem vítimas.
É compreensível que a Igreja Católica tenha suas regras, seu direito canônico, mas desprezar a dor de quem foi vítima de um crime tão brutal e chegar ao absurdo de afirmar que o aborto no caso seria mais grave que a violência sexual sofrida são interpretações, visões perigosas, vindas de uma instituição tão enraizada em nossa sociedade.
O bispo, no exercício de inquisição, esqueceu-se de arrolar a excomunhão do Poder Judiciário, que autorizou sem temor o aborto, pois, num país onde o Estado é laico, a vida de uma criança de nove anos, que ainda devia brincar de boneca, foi roubada, estraçalhada e somente não culminou com sua própria morte por intervenção de pessoas lúcidas que não estão pensando apenas em dogmas, mas em salvar vidas. A discussão sobre o aborto tem outra dimensão e deve mesmo ser tratada com cautela, mas daí a submeter uma criança a parir gêmeos de uma relação cruel não é algo tolerável e toda exceção tem que ser tratada como tal.
Entre violações e cânones, entre valores de todos os envolvidos, o maior deles sem dúvida é o direito de uma mãe preservar a todo custo a vida de sua filha, ainda que isto custe uma dor sem fim. Faltou ao bispo distribuir solidariedade e talvez não julgar seus próximos de maneira tão dura, cruel, para não dizer desumana.
Que num episódio tão triste a igreja possa rever alguns dogmas, muito embora haja correntes que tenham visão diferente sobre tragédias, afinal toda legalidade cega nunca contribuiu para melhorar a humanidade. De pecados e seres humanos, que a igreja católica possa perseguir a sua missão de evangelizar para a fraternidade e compaixão e que, por outro lado, essa menina possa crescer de maneira sadia e com respaldo familiar.
(O colaborador é advogado. charlesrc2@bol.com.br)
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