Um certo verão na Sicília

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LEITURA

Um certo verão na Sicília

Eduardo Pedreschi

Bom dia, amigos leitores de Rio Claro!
Sei que todos nós seríamos capazes de, em poucos minutos, elaborar uma lista de problemas e deficiências que nosso país tem, os quais nos entristecem e cobrem de vergonha.
Contudo, não podemos ser cegos a ponto de não vermos que também temos qualidades e virtudes. Algumas delas, extremamente raras em outros lugares do mundo.
Aquela sobre a qual eu gostaria de falar hoje é, para mim, muito mais do que uma qualidade ou virtude. Representa, no meu modo de ver, uma dádiva que nos foi concedida.
E esta dádiva é a grande responsável por eu estar aqui escrevendo, neste momento, assim como pela existência da grande maioria dos que aí estão, lendo-me agora.
Trata-se da multiculturalidade e da multirracialidade do nosso povo, vindas das diversas imigrações que ajudaram a construir o nosso país.
Somos assim, um povo sem características físicas marcantes e definidas. Uma verdadeira “geleia geral” em que, qualquer cor, qualquer estatura, qualquer formato de olhos ou tipo de cabelos podem ser características de um brasileiro.
Esta mistura de raças embelezou ainda mais o nosso idioma natal, com diversos sotaques e termos regionais. Deu características híbridas às nossas manifestações artísticas e, literalmente, “temperou” a nossa gastronomia, com sabores dos quatro cantos do mundo.
Mas, com a devida licença daqueles que provêm de outras origens, é inegável que a cultura italiana é predominante aqui em São Paulo.
Vindos, na sua grande maioria, para substituir a mão-de-obra escrava negra, recém libertada, os colonos italianos ocuparam quase que a totalidade dos postos de trabalho nas fazendas de café do estado, a partir do final do século XIX.
A crise do café e a industrialização os levaram, depois, para os grandes centros urbanos e, com isso, completou-se o nosso processo de “macarronização”.
E a herança italiana na cultura paulista é tamanha que as gerações mais novas, sobretudo, desconhecem os limites entre o que é nativo e aquilo que foi herdado.
Se duvidarem, experimentem perguntar para algumas crianças e jovens quais os pratos tipicamente brasileiros que eles preferem. Aposto que pizza e macarrão ocuparão os primeiros lugares!
Bem, o livro que vou lhes indicar como leitura, nesta semana, é um lançamento que mistura diário de viagem com um belíssimo romance. Trata-se de “Um certo verão na Sicília”, da autora, consultora e chef de cozinha italiana, Marlena de Blasi.
A Sicília é a terra da berinjela, dos tomates, do azeite, das flores e do silêncio. Na difícil missão de fazer uma reportagem sobre a vida no interior da ilha, a autora e seu marido chegaram às portas da misteriosa Villa Donnafugatta.
Dezenas de mulheres vestidas de preto, com tranças em torno da cabeça, trabalhavam, cantavam, rezavam e brincavam numa ensolarada paisagem de torres, sacadas, hortas, campos e colinas.
Parecia uma alucinação, mas era, na verdade, um refúgio feliz criado pela proprietária, Tosca Brozzi, para viúvas, mães solteiras e homens sem lar.
Tosca instala o casal na Villa e fascina Marlena com sua arrebatadora história de vida, contada em sessões diárias, debaixo de uma magnólia.
A história começa quando o pai de Tosca a troca por um dos cavalos do príncipe Léo, quando ela tinha 9 anos de idade.
A raiva inicial da menina dá lugar ao carinho e, depois, ao amor pelo príncipe. Juntos, depois da Segunda Guerra Mundial, Tosca e ele levam educação, bem-estar e um novo conceito de propriedade ao vilarejo que dependia das terras do nobre.
Havia tanto êxtase quanto dor nessa iniciativa, e Léo acabou sendo punido pela Máfia, por afrontar a hierarquia secular que mantinha os ricos no conforto e os pobres na miséria.
Quando a autora visitou Donnafugatta, algumas tradições antigas persistiam, como o xale que Tosca usava à noite, com o aroma de seu amado.
O emocionante relato de Tosca recria aromas, sabores e tradições assustadoras da Sicília, terra ainda habitada pelos deuses gregos.
Uma boa leitura e um excelente final de semana!

(O autor é proprietário da Livraria Eureka)
 

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